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Tem cultura no mapa: projeto colaborativo mapeia práticas culturais

06/11/2015

Gilberto Vieira, brasiliense, sempre quis trabalhar com cultura. Produtor cultural há sete anos, já produziu filmes, peças de teatro, festivais multidisciplinares, exposições, intervenções urbanas, entre muitas outras atividades. Colaborador do Observatório de Favelas, é parte da equipe que, em 2013, iniciou o Guia Cultural de Favelas, iniciativa do Favela Criativa, com o objetivo de mapear as práticas culturais locais em uma plataforma online e colaborativa. Confira a entrevista que ele deu para o Geração Light:

 

Geração Light: Você pode nos contar um pouco sobre como surgiu o Guia Cultural de Favelas? Como se deu a participação dos colaboradores do projeto? As práticas culturais mapeadas surgiram como sugestão da equipe ou vieram por meio de colaboração externa?

 

Gilberto - Durante os anos de 2012 e 2013 eu participei como produtor de um projeto chamado Solos Culturais, patrocinado pela Secretaria de Estado de Cultura e Petrobras. Durante esse tempo, 100 jovens de 6 favelas tiveram uma vasta formação em produção cultural e pesquisa em cultura. Dessa formação em cultura, saiu um mapeamento realizado pelos próprios jovens (com a orientação de uma pesquisadora) sobre as práticas culturais dessas 6 favelas. Eles levantaram mais de 300 práticas, que vão de teatro e dança até praças, artistas e coletivos. Nós lançamos esses números em um livro chamado Solos Culturais. As planilhas, com os dados coletados ficaram guardados até o fim do ano de 2013, quando conseguimos apoio da Light para retomar o projeto. 

 

Convidamos 40 dos 100 jovens que haviam participado da formação do Solos em 2012 e 2013, além de muitos outros que foram se adicionando ao grupo, para criar um mapa digital com essas práticas mapeadas. Durante 6 meses esses jovens revisitaram as planilhas que eles mesmos haviam produzido e escolheram 30 das 300 práticas para criar conteúdos multimídia e dar start no mapa de práticas culturais de favelas. Entre oficinas de vídeo, texto e foto e estudos sobre mapeamento digital, nasceu, em agosto de 2014, o Guia Cultural de Favelas. A plataforma conta ainda com uma página de colaboração direta em que qualquer produtor cultural tem possibilidade de fazer parte do mapa. A ideia é que o mapa não dependa de qualquer mapeamento prévio para existir, mas sim do engajamento e colaboração de produtores, artistas e coletivos.

No primeiro semestre de 2015, com o apoio da Open Society Foundations, o mapa foi publicado na íntegra no mapa, com todos os pontos mapeados em 2012 publicados em formato aberto. Resta ainda que os usuários - o principal público do Guia, acesse a plataforma e atualize os dados.

 

GL - Qual é a importância do projeto para as comunidades?

 

Gilberto - A maior importância do Guia Cultural de Favelas é disputar lugar no mapa. A maioria das favelas sequer existe nos mapas oficiais nos quais nos referenciamos na internet, como os do Google, por exemplo. Para além disso, jovens da favela são constantemente invisíveis e calados pelas mídias convencionais. É muito importante que jovens de territórios populares possam documentar a si mesmos e construir narrativas diferentes daquelas difundidas por essas mídias. Para além disso, o Guia tem a potência de construir e fortalecer redes de colaboração e economia entre os produtores culturais cadastrados lá. Imagine gerar uma rede de economia solidária entre ações culturais de favelas? Ainda há a importância de divulgar, para além das favelas, o que rola por aqui.

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GL - Qual foi o maior desafio na produção no projeto?

 

Gilberto - Na época da construção do Guia o maior desafio foi conseguir realizar tantas ações em tão pouco tempo com tantos jovens organizados. Éramos seis grupos, responsáveis por seis favelas. Durante os cerca de 4 encontros semanais, os grupos se revezavam entre oficinas práticas e saídas de campo, dividindo equipamentos de vídeo, para encontrar os responsáveis pelas práticas e entrevistá-los. Para que tudo saísse bem, em cada grupo havia funções bem definidas como produção, vídeo, texto, áudio, foto e edição. Foi um sufoco realizar e finalizar trinta vídeos em seis meses e ainda dar conta de subir todos numa plataforma digital. 

Hoje, o maior desafio do Guia é  gerar comunicação. Estamos com um projeto desenhado (ainda sem financiamento) de difusão da plataforma pelas favelas da cidade para promover maiores interações e apropriação por parte dos próprios produtores culturais. O Guia Cultural de Favelas precisa estar sempre atualizado e sendo difundido para gerar resultados econômicos e culturais mais significativos ainda. 

 

 

GL - Qual foi o seu maior orgulho em estar no desenvolvimento do projeto?

 

Gilberto - Eu me orgulho muito de ter chegado até aqui. Ver a plataforma funcionando e a rede que criamos para que ela acontecesse é motivo de muita felicidade. O mais importante para mim é manter a rede ativa. O Solos Culturais é um programa, uma metodologia aberta e em constante construção que tem potência de gerar muitos projetos, produtos e reflexões que possam reposicionar o modo como a maioria da sociedade olha para os jovens e para a produção cultural que vêm das favelas e dos territórios populares das cidades. Resta agora inventar um modo criativo de mantê-lo vivo e em atividade.